segunda-feira, 14 de julho de 2014

Depois do carnaval


         O consultório era simples, consistia apenas de uma mesa de vidro e um quadro na parede.
         Essa psicóloga deve estar demorando de propósito. __ pensou Letícia __ Não é possível que ela não saiba que eu estou aqui.
         Irritada, ela se concentrou em olhar o quadro. Eram várias máscaras, com detalhes variados e coloridos, mas a última era simples, toda branca e sem nada em especial.
         Máscaras venezianas... elas são lindas, detalhadas, maravilhosas...
         ___ Desculpe o atraso, estava resolvendo um pequeno problema. __ disse Vitória.
         ___ Tudo bem. Bonito o quadro.
         ___ Obrigada.
         ___ Algum significado especial?
         ___ Talvez... mas despertou algo em você?
         ___ Confesso que fiquei incomodada com a última máscara.
         ___ Por quê?
         ___ Não sei explicar.
         ___ A simplicidade... __ suspirou __ Aqui, as máscaras caem...
         Ela deve ter mais ou menos a minha idade. Será que tem filhos? Não usa aliança, não é casada. Ela jamais vai me entender, foi um erro enorme ter vindo aqui. Mas o que importa isso? Já estou cheia de problemas, acho até que eles devem se sentir atraídos por mim.  __ pensou Letícia, amarga.
         ___ Minha história é simples. Tenho um filho lindo e um marido maravilhoso. __ fez uma pausa.
         Vitória deixou que ela continuasse organizando seus pensamentos.
         ___ Hoje faz exatamente dois anos que minha vida mudou. __ Letícia contemplava o quadro __ Meu marido é biólogo, está sempre pesquisando, viajando... Eu sou fotógrafa, tenho um estúdio no andar de baixo da nossa casa. __ mais uma pausa __ É difícil falar... até hoje  ainda não entendi direito o que aconteceu.
         ___ Não se apresse.
         Uma médica pediatra amiga de Vitória havia recomendado a Letícia que a procurasse. Depois, ligou para a colega a fim de falar brevemente sobre essa paciente, mas não lhe adiantara o problema, disse apenas que ela deixasse o horário livre, sem marcar nenhuma outra consulta.
         Intrigada, Vitória fez o que lhe fora recomendado. E ali estava ela, Letícia. A moça deveria ter uns 30 anos, era negra, esguia, cabelos castanhos, curtos, e muito bonita.
         ___ Nosso filho tem dois anos e se chama Tomás, é uma criança extremamente carinhosa. O parto dele foi tranqüilo, meu marido estava ao meu lado... Levamos ele para casa, ele parecia ser um bebê normal, mas percebemos que ele ganhava pouco peso e estava sempre com muita sede. Eu vivia questionando a pediatra dele sobre isso e ela dizia que isso acontecia com algumas crianças. Fiquei desconfiada e resolvi trocar de pediatra. Quando consultamos a doutora Simone, ela pediu uma série de exames... __ nova pausa, acompanhada de um forte suspiro __ inclusive o de tipagem saguínea. Foi aí que minha vida começou a desabar. O Vini, Vinícius, meu marido, deu uma olhada nos resultados e viu que o sangue do Tomás é A positivo, sendo que tanto eu, quanto ele somos O positivo.
         A essa altura, Letícia torcia nervosamente as mãos e finalmente o problema começava a se delinear.
         ___ O Vinícius disse que algo deveria estar errado, o sangue do Tomás jamais poderia ser daquele tipo. Foi aí que ele pediu que a pediatra solicitasse a repetição do exame. Eu fiquei desesperada...
         As últimas palavras saíram estranguladas.
         ___ Letícia, vou pedir para trazerem uma água para nós.
         Esse foi o artifício usado pela psicóloga para ganhar tempo. Aquele seria um caso bem difícil.
         Não vou conseguir beber essa água, minha garganta está fechada. __ pensou Letícia.
         ___ O exame foi refeito e deu o mesmo resultado. Vinícius se fechou em copas, não quis conversar. Nos voltamos completamente para o possível problema do nosso filho. __ aí a voz dela embargou __ Relatamos que ele comia bem, gostava de frutas, comia legumes e nada de engordar. Contamos também sobre o excessivo número de trocas de fraldas, em como isso era estranho. A doutora Simone foi muito cautelosa no diagnóstico, preferiu acompanhar por um tempo o caso dele. Nesse meio tempo, em casa, o Vinícius e eu mal nos falávamos. Por fim, veio o  diagnóstico, o Tomás é diabético do tipo 1, é dependente de insulina. Ficamos arrasados.
         Com mãos trêmulas, Letícia finalmente bebeu um gole da água.
         ___ O que foi que eu fiz? __ perguntou ela, mas a pergunta era retórica __ O que foi que eu fiz com a minha vida?
         ___ Fique calma, respire fundo. __ disse Vitória.
         ___ Tudo estava nos seus devidos lugares e eu baguncei tudo, fiz tudo errado. __ respirou __ Acabei com o meu casamento em apenas algumas horas...
         ___ Continue respirando fundo.
___ Eu estou bem. __ Letícia procurou se recompor da melhor maneira que pôde. __ Não tinha para onde correr, tive que ter a tão temida conversa com o Vinícius. Contei para ele como tudo aconteceu.
         ___ E como foi?
         ___ Há dois anos, uns dias antes do Carnaval, meu marido teve que viajar, nós havíamos brigado, já vínhamos brigando há algum tempo, e ele viajou sem falar comigo direito. Eu havia sido contratada para tirar umas fotos de uma festa de Carnaval em um clube, não poderia deixar de ir. Chegando lá, vi um rapaz fantasiado de Pierrot e tirei uma foto dele. Fiquei encantada quando ele fez um truque de mágica e me deu uma rosa. Fotografei mais um pouco e... já tinha feito mais de cem fotos já tinha um bom material para trabalhar. Encontramos-nos de novo na saída, mas ele já estava sem a máscara, reconheci-o pela fantasia. Devo confessar que ele tem um rosto fantástico, é um homem extremamente bonito.
         Por breves momentos, Vitória sentiu que Letícia estava longe. Aos poucos ela voltou de sua lembrança:
         ___ Num impulso, convidei ele para ir ao meu estúdio fazer umas fotos, disse que o cachê não seria alto, mas ele topou. A minha ideia era fotografá-lo sem a máscara, só com a fantasia. No dia seguinte, arrumei tudo, ele foi pontual.
         A voz de Letícia era fraca, lenta.
         ___ Depois de um tempo, fizemos uma pausa, ele estava um pouco cansado, fui a casa pegar um suco que já deixara preparado, quando desci, conversamos um pouco e Márcio, esse é o nome dele, falou que morava no Espírito Santo, estava de férias aqui no Rio. Ali, olhando para ele, pensei que aquela pessoa não tinha nada do palhaço triste, não o imaginei apaixonado por uma mulher que quisesse outro. Pedi que tirasse a parte de cima da fantasia, queria contrastar a tristeza do palhaço, com o corpo másculo dele. Que mulher não iria querer consolar aquele Pierrot? Tive de me aproximar para arrumar parte da roupa que estava arriada demais. Eu não tenho assistente, trabalho sozinha...
         A vergonha e o constrangimento estão estampados no rosto dela. __ pensou Vitória.
         ___ Foi nessa hora __ continuou __ que olhamos um nos olhos do outro e nos beijamos, fizemos amor ali mesmo, no chão. Ele ficou sem jeito, eu também... acabamos nos desculpando um com o outro e ele foi embora. Engravidei de um homem que nem sei onde encontrar. Sou uma louca!
         Vitória sentiu que a sessão ficaria pesada demais caso continuasse, mais para frente faria com que Letícia voltasse no tempo e resgatasse as emoções sentidas na época.
         Letícia apareceu na hora marcada, mas tinha os olhos vermelhos e o rosto cansado.
         ___ Oi, tudo bem? __ Vitória preferiu entrar logo no assunto.
         ___ As coisas em casa estão muito complicadas.
         ___ Quer falar sobre isso?
___ Quero, eu preciso falar. O Vinícius mal fala comigo. Não me acostumei a aplicar a insulina no Tomás, ele fica chorando e eu também choro e peço desculpas a ele. Meu marido fica irritado comigo, com tudo. Sou uma boa mãe, deixo ele sempre sequinho, limpinho. Sofro muito quando tenho que dar a injeção, preferia não ter que fazer isso.  Sinto um certo conforto quando é o Vinícius que cuida dele. Não que eu não ame o meu filho, mas vendo a minha vida assim, tão destruída...
         Não passou despercebido pela psicóloga a forma como a paciente se referia ao marido, o apelido carinhoso de antes já não estava mais sendo usado.
         ___ Você sente que seria melhor que se ele não existisse, se você não tivesse engravidado.
         ___ É exatamente assim que eu me sinto. Aquele homem teria sumido da minha vida, e tudo seria como antes. Eu não teria que passar por toda essa turbulência, meu marido continuaria me amando e eu a ele. Mas não, ele finge que eu não existo.
         ___ A situação é difícil, Letícia, você tem que dar um tempo para ele.
         ___ Eu sei disso, estou tentando, juro que estou tentando.     ___ É a maneira que ele encontrou de lidar com tudo isso nesse momento.
         Letícia ficou calada.
___ Na semana passada, você me disse mais ou menos como tudo aconteceu, mas alguns detalhes ficaram para trás. Por exemplo, qual o motivo da briga entre você e o seu marido? Vocês brigaram antes dele viajar, não foi?
___ Vitória, eu não conheci meu pai, ele morreu antes de eu nascer., não soube como era... não, vou explicar do início, é melhor. Minha mãe se casou com o meu pai ainda muito jovem, ele era dezoito anos mais velho que ela. Ela se apaixonou por ele a primeira vista, mas meu pai era cardíaco e nunca se cuidou, morreu cedo demais. Ela conseguiu trabalhar como faz tudo na casa de uma mulher que havia vindo da Inglaterra há pouco, eu tinha um ano na época. Essa senhora me criou junto com a minha mãe, me ensinou a falar inglês, me colocou nas melhores escolas particulares, cuidou de mim com o maior amor.
Os olhos de Letícia pareceram menos tristes ao lembrar de sua infância.
___ Dona Margarida, a patroa da minha mãe, era solteira, jamais se casou, viveu sozinha a vida toda, disse que havia voltado ao Brasil porque não suportava o inverno inglês. Mamãe também não casou de novo depois da morte do meu pai. Resumindo a história, eu não tive convívio íntimo com nenhuma figura masculina, nunca soube como é viver com um homem até me casar.
Realmente, ser criada só por mulheres pode ser difícil, mas essa é uma realidade muito comum no Brasil, mulheres chefes de família. Embora não seja necessariamente essa a situação retratada por ela, uma das conseqüências é essa.  __ pensou Vitória.
___ No início, tudo é perdoável, achamos os pequenos deslizes do nosso companheiro engraçados, mas depois de oito anos juntos, fica difícil. O Vinícius é extremamente desorganizado, estou cansada de falar as mesmas coisas, sempre deixando tudo fora do lugar. Eu estava cansada, eu estou cansada, mas não... não é certo dizer isso, um marido tão bom quanto o meu... pelo menos é o que a minha mãe sempre diz. __ fez uma pausa. O olhar dela mostrava todo o seu abatimento. __Uns dias antes de viajar, ele foi ao estúdio procurar alguma coisa. __ continuou __ Um pouco depois, voltou dizendo que sem querer quebrou um equipamento meu. Vitória, quando eu fui ver, ele havia quebrado a minha câmera mais cara, era uma Sigma SD15, de 14 megapixels, essa máquina custou três mil, setecentos e vinte cinco reais, foi um presente da minha mãe, ela quis me ajudar, coitada, sabia que era caro demais para eu poder comprar. Fiquei arrasada, briguei com ele. Ele disse que estava procurando a câmera fotográfica dele, uma simples, que usava no trabalho. Se tivesse me perguntado, eu diria que estava no escritório, junto com suas coisas que eu havia arrumado.
___ Não havia como consertar? __ perguntou, Vitória.
___ Não, perda total, ela estava em cima de uma prateleira alta, quebrou a lente, quebrou tudo. __ respondeu Letícia triste.
Pensando no que Letícia acabara de dizer sobre a desorganização do marido, Vitória lembrou de uma pesquisa recente que acabara de ler. Os resultados diziam que a ordem proporciona sensação de profissionalismo e serenidade.
Os espaços ordenados, como o estúdio de Letícia, inspiram disciplina e escolhas saudáveis, já os espaços bagunçados são fundamentais para a criatividade.
Infelizmente nada daquilo amenizaria o problema da paciente.
___ Letícia, feche os olhos, isso. Vamos tentar voltar no tempo o máximo que conseguirmos. Não quero que me diga como aconteceu, quero apenas que volte ao momento em que foi arrumar a fantasia do rapaz que estava caída demais
___ Sim, estávamos conversando, ele estava muito nervoso.
___ Você se aproximou...
___ Os olhos dele são de um verde quase transparente, muito claros. Ele estava suando, pensei que deveria diminuir um pouco a luz, depois melhoraria a imagem no computador. Quando encostei na roupa, sem querer toquei nele.
___ Continue lembrando, mas agora sem falar, traga apenas para a memória.
Letícia sentiu como se encostasse novamente naquela pele quente. Levantou lentamente os olhos ao mesmo tempo em que Márcio tocava em seu braço, em seu pescoço, em sua orelha, por fim, tocou levemente em sua boca.
Os lábios dele eram finos, contrastavam grandemente com os dela, que eram carnudos. Mas sua língua parecia ter o mesmo calor que sua pele, era úmida, firme...
Ele a segurou firme, quase com força, a prendeu em seu beijo. Letícia não resistiu, tirou sua blusa de malha e o jeans, a fantasia de Pierrot jazia disforme no chão, ela lembrava vagamente do brilho das lantejoulas.
O peso do corpo dele sobre ela não lhe pareceu estranho, o ar ainda passava por suas narinas e lhe inflava o corpo dando energia para continuar suspirando.
Márcio a experimentava como se estivesse comendo jambo; ela era macia, suculenta e perfumada.
A barba grossa a arranhava um pouco, mas Letícia gostou daquele contato que lhe causara pequenos arrepios.
As mãos do rapaz pareciam estar em todas as partes do seu corpo, explorando-lhe as entranhas... Letícia procurou dominá-lo, manter-se por cima e descobriu que seria mais bem acolhida ainda, ele não se mostrou constrangido, ajudou-a a se equilibrar melhor.
Eles suavam, escorregavam pelo corpo um do outro. Márcio parecia sedento, lambia cada gota que saía de seu corpo, o prazer parecia não ter fim.
Os dentes ainda trincavam ambas as carnes, os lábios sugavam com força, as mãos apertavam. Como vulcões, entraram em erupção, e Tomás foi concebido.
___ Letícia, quero que permaneça de olhos fechados e me diga o que sentiu.
Um rubor imperceptível surgiu no rosto dela.
___ Prazer. __ respondeu.
___ Está sentindo alguma culpa?
___ Não, apenas respirando junto com ele, não quero pensar.
___ Mas pensamentos depois vieram à sua cabeça.
___ Sim. Assim que acabou pensei no Vini, senti saudade dele. Foi como se luzes se acendessem naquele momento.
___ Abra os olhos.
Assim ela fez.
___ Letícia, a culpa veio assim que tudo acabou... Pelo que você falou, pude perceber que foi um momento, você não planejou nada.
___ Mas eu fui leviana, meu filho nasceu doente por minha causa.
Vitória já havia percebido o quão grande era o conflito emocional da paciente, levaria tempo até ela entender que deveria viver sua dor, experimentá-la, como estava fazendo naquele momento, mas também que deveria deixá-la ir. Embora a traição seja uma escolha, devendo-se assumir sua responsabilidade, isso não deve implicar que a pessoa mereça ficar se condenando o tempo todo.
___ Letícia, falar em leviandade associada a erro involuntário é um caminho de dor que não tem volta. Vamos conversar melhor na próxima semana.
As duas consultas seguintes foram canceladas, Vitória sabia que estava chegando perto do que chamava de ponto nevrálgico, mas a decisão de continuar ou não era de Letícia.
A função do psicólogo é orientar; ele não deve tomar decisões pelo paciente, o profissionalismo deve anteceder as emoções.
E assim Vitória viu a semana passar.
___ Vitória, __ disse Gabriela, a secretária __ sua paciente das quatro vem hoje.
___ Obrigada, Gabriela. Estava mesmo esperando que ela voltasse.
Encabulada, Letícia entrou na sala.
Vitória procurou em seu rosto algum sinal que indicasse sua ausência na semana anterior, mas encontrou apenas os mesmos olhos tristes.
___ Vitória, eu sinto muito, não me senti com forças para vir aqui na semana passada. O Tomás ficou gripado e muito enjoadinho na hora de tomar a insulina, fiquei esgotada. Acompanho todas as notícias que saem sobre a insulina em comprimidos, mas parece que ainda vai demorar um pouco.
___ Mas só o fato de as pesquisas estarem tão adiantadas, é uma esperança a mais.
___ Você tem razão.
___ Na última sessão falamos sobre ...
___ Por favor, Vitória, não precisamos voltar a isso, não é? Falamos sobre... sobre o dia em que engravidei.
___ Exatamente, foi aí que paramos. Agora diga, como foi quando o seu marido voltou?
___ Eu ainda estava chateada com ele, mas me sentia culpada demais pelo que havia feito. Fizemos as pazes na mesma hora.
___ E a descoberta da gravidez?
___ Um pesadelo. __ disse Letícia, sincera __ Um pesadelo daqueles. Eu não sabia se o bebê era do Márcio ou do Vinícius. Fiz o exame de sangue para saber o número de semanas, depois fiz as contas, descobri que não poderia ser do meu marido. __ sua boca se contorceu __ O Vini ficou apaixonado pela ideia de ser pai. Já estávamos tentando há algum tempo, mas sabíamos que teríamos de esperar um ano de tentativas nulas para procurar um médico. Bom, pelo menos foi o que me disse o meu ginecologista.
___ Esse é um procedimento padrão, mas há muitos pais que preferem fazer os exames de fertilidade assim que param de se proteger.
___ Passei toda a gravidez nervosa, não poderia levar aquilo adiante. Pensei em contar para o meu marido, mas tive medo. Não me abri com ninguém, guardei o meu segredo.
Vitória pensou em como Letícia deveria ter sofrido.
___ Tinha dias em que o bebê ficava muito agitado, chutava muito, e o Vini dizia que ele seria um jogador de futebol. __ sorriu __ Senti todos os medos normais durante a gravidez: será que o meu bebezinho nasceria perfeito? Teria todos os dedinhos? Nasceria grande?
Letícia fez uma longa pausa, mas Vitória apenas esperou, como já fizera outras vezes.
___ O Vinícius, assim como o pai do meu filho, também é branco. Eu sabia que a criança seria uma mistura de raças. Mas... __ foi aí que ela chorou, pela primeira vez.
Em silêncio, Vitória ofereceu uma caixa de lenços de papel a ela.
___ Por favor, podemos terminar mais cedo? Eu ...
Dessa vez, foi Vitória quem suspirou. Letícia ainda estava muito hesitante, preferia fugir a enfrentar suas questões.
___ Pode... mas não é indo embora que os problemas vão sumir.
___ Você tem razão, mas preciso ir.
Vitória a viu sair da sala sem saber se ela voltaria. A fragilidade de Letícia estava cada vez mais aparente, o estado de ânimo dela estava ficando tremendamente comprometido.
Na consulta seguinte...
___ Vitória, você disse que eu deveria enfrentar meus medos. Estou tentando, mas às vezes é tão difícil. Se ao menos o Vinícius conversasse comigo? Quando ele se dirige a mim é apenas para falar sobre o Tomás. Ele ama o meu filho de verdade, eu vejo isso. Mas nós, marido e mulher, não existimos mais, há meses ele não encosta em mim, dorme no quarto do garoto, dali vai trabalhar, nem sei por onde ele anda. Eu sei que ele precisa de um tempo, mas isso está me amargurando. Não posso viver assim... Até quando ele vai me punir?
Até onde vai a dor de uma pessoa e a vontade de vivê-la é algo indefinível. __ pensou Vitória __ Pode ser que o marido esteja querendo puni-la pelo que ela fez e, se for isso mesmo, vai levar às últimas consequências a sua vingança. Isso poderia ser perigoso, para ambos, pois tanto Letícia quanto Vinícius estavam no auge da mágoa.
Letícia chegou agitada a consulta.
___ Conversei com ele. __ continuou Letícia __ Pedi que saísse de casa. Ele fez uma cena, disse que eu jamais o afastaria do Tomás, que eu era uma traidora e merecia tudo o que estava passando.
___ E você, como se sentiu?
___ Por incrível que pareça, me senti aliviada, eu queria que ele jogasse tudo para fora. Achei bom.
___ E depois?
___ Depois? Eu vi o Vinícius murchar... ele arrumou as coisas dele... telefonou para alguém, provavelmente o Jaime, o nosso padrinho de casamento e grande amigo dele, e foi embora. Disse que gostaria de continuar me acompanhando nas consultas do Tomás, que queria continuar vendo ele e pediu __ sua voz ficou embargada __ que eu cuidasse bem do nosso filho, que eu parasse de chorar junto com ele quando aplicasse a insulina. __ ela estava muito emocionada __ Juro, ele falou “nosso filho”. Sonhamos muito com uma criança, pintamos o quartinho dele juntos, compramos as roupinhas, os brinquedos...
As lágrimas desciam livremente pelo rosto de Letícia.
___ Ah, Vitória, foi tão triste... eu estou tão mal.
Vitória também estava muito emocionada, sentia dificuldade de manter o controle. Segurou firme a mão de Letícia.
Aquele foi um momento de catarse, a libertação psíquica de Letícia.
___ Eu disse que ele poderia ver o Tomás sempre que pudesse.
O dia a dia tanto da mãe quanto do filho foram alterados, Letícia já não contava com mais ninguém para ajudar a cuidar do bebê, falara brevemente com sua mãe sobre a separação e dissera a ela que estava bem, que não se preocupasse.
Letícia acabou se aproximando mais do filho, amando-o plenamente e não o olhando como o fruto de sua traição ou pior ainda, como pivô de sua separação.
Todo esse amadurecimento foi observado e orientado por Vitória.
___ O Vinícius tem ido ver o Tomás. No início ele o levava para passear de carro, mas depois acabou brincando com ele em casa mesmo.
Hum, ele está querendo se aproximar. __ pensou Vitória.
___ Procuro não impor minha presença, fico trabalhando sempre no estúdio.
___ Faz muito bem, você deve mesmo dar espaço a ele.
Mas parecia que o tempo estava curando os machucados de Vinícius, ele já incluía Letícia em seus passeios com Tomás, embora o menino já não sentisse tanto a ausência da mãe.
É __ pensou Vitória __ o vento arranca as folhas da árvore e as joga no rio, mas a árvore sempre se recompõe. O vento que sacudiu a vida deles não contava com a força desse amor.



quinta-feira, 26 de junho de 2014

Vivendo o sonho


___ Fracassado!
         Que situação, agora até mesmo o espelho fala mal de mim.__ pensou Anderson.
         ___ Não estou falando mal de você, só estou falando a verdade. Você é um fracassado! __ falou sua própria imagem refletida no espelho.
         ___ Olha aqui, eu sou um escritor, e vou fazer muito sucesso! Está me ouvindo? Eu vou fazer muito sucesso! __ gritou Anderson.
         A voz imediatamente cessou.
         Ele tinha um encontro com Paula, teria de se arrumar o mais rápido possível. Terminou de se barbear e foi direto para o chuveiro.
         Ela vai adorar a surpresa! Quando ela sorrir e disser que me ama, direi o mesmo para ela e seremos muito felizes.
         Paula trabalhava como recepcionista em uma clínica ali perto e Anderson resolveu surpreendê-la se escondendo atrás de uma árvore.
         ___ Olá, princesa. __ disse ele.
         ___ Você quase me assustou, heim.
         ___ Sorria.
         ___ Adoro o seu jeito brincalhão, já estou me acostumando.
         ___ Sendo assim, uma menina tão bem comportada, não tenho outra coisa a fazer que não seja levá-la para tomar um chope gelado e comer alguma coisa de frente para o mar. __ riram juntos.
         ___ Nossa, que convite maravilhoso! O que estamos comemorando? Recebeu um aumento e já vamos gastar? Adoro isso!
         Abraçados, sentaram em um quiosque do calçadão de Copacabana.
         Após brindarem a novidade de que Paula ainda nem tomara conhecimento, Anderson finalmente falou o que era.
         ___ Larguei o emprego. __ disse ele.
         ___ Como?
         ___ Saí do trabalho. Daqui para frente vou me dedicar exclusivamente ao meu talento: serei um escritor!
         ___ Como assim? __ indignada com a notícia ,Paula tentava entender o significado daquilo tudo __ Como assim, Anderson? Como largou o trabalho e agora será escritor?
         ___ Amor, é simples. Pedi para sair da empresa, fiz acordo. Trabalhei lá por um ano, tenho direito a algumas parcelas do seguro desemprego, não vou ficar completamente sem dinheiro, terei o suficiente para escrever o meu livro.
         Paula sempre fora muito regrada com relação as finanças, morava de aluguel em um kitnet bem pequeno, juntava tudo o que podia para pagar a mensalidade do curso de enfermagem, que fazia à noite. Para ela aquela era uma loucura sem tamanho.
         ___ Paula, eu já publiquei um livro uma vez, deu certo.
         ___ Anderson, você publicou um livro com os seus recursos, você mesmo que teve de pagar pela maior parte das despesas. Tirando a sua mãe, que comprou umas trinta unidades, poucos foram os amigos que compraram. Isso sem falar que mais ninguém apareceu no lançamento.
         ___ Eu sei disso, por esse motivo que eu preciso me concentrar, para escrever melhor, dar vazão aos meus pensamentos, a minha criatividade.
         Anderson estava tão orgulhoso de si, que parecia impossível contrariá-lo, parecia que tudo realmente daria certo, mas Paula era uma mulher vivida, nascida e criada em um bairro pobre da zona oeste da cidade, sabia muito bem o que era não ter os pés no chão, seu pai vivera a vida toda com ares de grandeza e morreu pobre, sem dinheiro sequer para o enterro, a mãe partira logo depois.
         ___ Anderson, não quero bancar a chata, sei que você tem talento, que o seu trabalho é bom, adorei o seu livro, mas as coisas não podem ser feitas dessa maneira, você não pode largar tudo...
         Ele não entendia porque a namorada parecia tão desolada, o sucesso viria.
         Mas havia aquela voz bem lá no fundo de seu cérebro que teimava em chamá-lo de fracassado. Ele havia tentado divulgar nas redes sociais seu livro, escrevera para o jornal, sempre que podia falava com as pessoas sobre sua obra, mas nada.
         Na lista dos mais vendidos estavam romances açucarados, vendidos para o cinema, ou livros de autoajuda, no qual propagavam que poderiam mudar sua vida em semanas, ou ainda, livros que diziam que poderiam proteger seu casamento.
         Anderson estava farto disso, queria trazer algo inovador, um trabalho diferente de tudo o que o Brasil costumava importar do estrangeiro.
         ___ Paula...
         ___ Anderson, assim fica complicado. Antes, quando você ainda trabalhava, as coisas já estavam difíceis, a gente quase não saía, só um cineminha de vez em quando, mas eu entendia, porque eu sei que o dinheiro anda curto, mas agora, pelo visto tudo vai piorar.
         ___ Amor, nós podemos economizar um pouco mais... olha... podemos ficar mais em casa, fazer caminhada pelo bairro, ver filme da televisão.
         ___ Ah, ta, e quando o dinheiro ficar mais curto ainda, o que vamos fazer? Vamos diminuir a comida também?
         ___ Pode ser, eu estou mesmo precisando fazer uma dietinha, e você já é magra. __ olhou para ela com o seu melhor olhar de cãozinho abandonado.
         Paula olhou-o bem fundo nos olhos e levantou da mesa.
         ___ Ei, aonde vai? Eu estava só brincando... macarrão ainda tem um preço razoável... vai dar para comer.
         Ele se sentiu um incompreendido, Einstein também tivera dificuldades no tempo dele, chegaram a dizer que o famoso físico não chegaria a lugar algum.
         Falando para si mesmo, ele disse:
         ___ Beethoven era como eu, as pessoas não o entendiam bem. Ele era desajeitado com o violino, preferia tocar suas próprias composições, não estava nem aí para melhorar a técnica e ficar reproduzindo o repertório dos outros.
         Na terceira rodada, ele que não estava acostumado a beber, começou a conversar com o garçom.
         ___ Você sabia que Alexander Graham Bell foi o grande inventor do telefone? Pois é, ele tentou vender sua invenção para uma grande empresa americana e sabe o que eles disseram? Não. Foi a resposta que ele recebeu.
         Como o movimento ainda era pouco, o rapaz deu um pouco de atenção àquele cliente.
         ___ Obrigado, meu amigo, obrigado por me emprestar seus ouvidos. Ela me dispensou, mas eu te digo, um dia eu serei famoso, vou fazer muito sucesso com os meus livros. Houveram outros gênios não reconhecidos em um primeiro momento de suas vidas. Darwin escreveu a Teoria da Evolução, mas não quero falar muito sobre ele, só reconheceram o seu valor quando já estava morto, não é um exemplo lá muito bom, dada a atual conjuntura; Thomas Edison inventou a lâmpada elétrica e o gramofone, os professores dele chegaram a dizer que ele era burro demais para aprender qualquer coisa. Enfim, tantas pessoas talentosíssimas...
         ___ Senhor, posso lhe dar um conselho? Vá para casa, descanse um pouco... Vai ser melhor .
         ___ Não sei se você está dizendo isso porque eu posso acabar ficando bêbado aqui e dando trabalho ou não, e olha que essa é uma possibilidade. __ ele riu __ Mas prefiro acreditar que suas sóbrias palavras são para o meu bem, vou embora.
         Pagou a conta e deixou uma gorda gorjeta para o rapaz simpático.
         O dia seguinte surgiu tímido, de sol ameno, até meio frio.
         ___ Nada como um friozinho, um chocolate quente e o meu computador para começar a escrever.
         E assim ele fez na semana que seguiu.
         Escrevi um capítulo inteirinho. Que maravilha, eu sou muito bom mesmo. __ pensou.
         O espelho novamente falou com ele:
         ___ Fracassado.
         ___ Olha aqui, eu sei muito bem quem você é. Você é minha estima que anda em baixa. Fica aí me atormentando, me chamando de fracassado. Faz parte do processo de escrever ser questionado por si mesmo.
         ___ Então essa é a sua desculpa para não ter se barbeado esse tempo todo? Por isso você não veio aqui e me encarou de frente?
         ___ Está ficando meio estranha essa nossa relação, você não acha? __ riu, sem graça __ Tudo bem que eu adoro falar comigo mesmo, sou um excelente ouvinte mas, sinceramente, você está me incomodando... Isso é assédio.
         ___ Prefere chamar de assédio sua consciência pesada, é?
         ___ Olha aqui __ disse ele olhando duramente para sua imagem no espelho __ não estou com a consciência pesada, fiz o certo.
         ___ O certo para quem?
         ___ Para mim, para a sociedade... Eu não poderia ficar trabalhando em uma coisa que eu não gosto.
         ___ Então você prega que só devemos fazer o que gostamos?
         ___ Mas é claro?
         ___ Nunca passou pela sua cabeça que quando o que gostamos se torna obrigação já não gostamos tanto? Muitos escritores têm outras funções, escrever é só uma delas.
         ___ Está bem, está bem... hoje você está inspirado para me perturbar.
         ___ Já que eu sou você, logo você mesmo está se questionando.
         ___ Ai, definitivamente devo estar pirando. Aqui, trancado dentro do meu apartamento, ouvindo o meu reflexo no espelho. __ dramaticamente acrescentou __ Vale tudo pela arte.
         ___ Não sei se isso te consola, mas Virgínia Woolf, Van Gogh e Lima Barreto, tinham problemas psiquiátricos, mas eram muito criativos. Barreto, por exemplo, foi diagnosticado com neurastenia, além de sofrer de depressão.
         ___ Já chega! Nem mais uma palavra! __ disse Anderson, o de fora do espelho, enfático.
         Um mês depois e ele resolveu ler tudo o que havia escrito até aquele momento. Leu, leu de novo e de novo, até que finalmente decidiu enviar para um amigo ler.
         Era a história de um vampiro deprimido que criticava a sociedade por seu parasitismo, já que tivera centenas de anos para observá-la. Cansado da solidão, ele resolveu arrumar uma companheira para passar a eternidade, mas ninguém quis se envolver com ele, porque o trapalhão foi mordido quando já era velho e ainda por cima, feio.
         Aqui eu trabalho vários temas, como o fato de a sociedade ter evoluído tecnologicamente, mas não tendo convertido isso para um bem maior, deterioraram o planeta. Muito boa essa! Além de ter a questão da imagem, de como a imagem é importante até mesmo para se conseguir uma companheira.
        Eu sou muito inteligente!
         Depois de quase uma semana de espera, o amigo respondeu dizendo que a ideia não era nem um pouco original e que o tema era fraco.
         Anderson teve que dar o braço a torcer, sabia que o texto era ruim, mas não quisera admitir. Ficou deprimido, mais isolado ainda dentro de casa.
         Dormia e acordava olhando o notebook  fechado, não tinha vontade de escrever sobre outro tema, continuava pensando em seu vampiro bonachão.
         Quando largara o emprego, ele achava que seria fácil produzir algo, já que estava em casa, confortável, com todo o tempo do mundo, mas descobriu o óbvio, inspiração não surge no momento em que se deseja, ela simplesmente brota de algum lugar do cérebro.
         Quando a campainha tocou, ele se surpreendeu, havia pedido aos amigos que não o procurassem porque, segundo ele, estava criando.
         ___ Oi. __disse Paula.
         ___ Oi. __ surpreso, ele não sabia mais o que dizer.
         ___ Estava preocupada com você. Não me ligou e nossos amigos não o veem mais. O que houve?
         ___ Não precisa se preocupar, eu__ enfatizou a palavra__ estou muito bem, estou escrevendo o meu livro.
         ___ Então me mostra como ele está ficando.
         ___ Um livro é como uma noiva, não pode ser visto antes de estar pronto.
         ___ Anderson, eu te conheço. Você não produziu algo que valesse a pena continuar, porque do contrário você iria correr para me mostrar e jogar na minha cara o seu talento.
         ___ Eu não seria tão cruel assim, na verdade eu apenas telefonaria dizendo como estava indo tudo.
         Ela sabia que ele estava tentando provocar o riso.
         ___ Ah, então você não tem nada mesmo. Olhe em volta, esse apartamento está todo imundo, os armários estão vazios... você está em dificuldades.
         ___ Eu diria que estou apenas jejuando um pouco.
         Paula não conteve o riso, mesmo nas situações mais precárias ele era engraçado, ela riu daquele maluco inconsequente que ela tanto amava.
         O sorriso dela era tão lindo, que ele sentiu o coração apertar, assim como o estômago, claro, e outras vontades surgiram também.
         ___ Venha, vou ser seu mecenas hoje e vou te levar para jantar.
         Depois do jantar, foram juntos para a casa dele e fizeram amor.
         ___ Anderson, você tem que sair um pouco daqui, olhar a rua, ver as pessoas. Quem sabe sua inspiração não volta?
         Mais confiante, seguiu a risca os conselhos da namorada, mas sua inspiração não veio e o dinheiro acabou.
         ___ Paula, me dou por vencido... vou procurar um emprego, talvez seja melhor assim.
         Ela ficou triste por ver a tristeza dele, mas não tinha como ajudá-lo.
         ___ Estou aqui, espelho, pronto para ouvir seu sermão.
         Mas seu reflexo não respondeu a provocação. Anderson começou a achar que talvez tenha enlouquecido por um curto espaço de tempo, nunca saberia.
         Como tinha experiência em planilhas, conseguiu um emprego no escritório de um pet shopping, era o gerente.
         Os animais eram a paixão dele, todos os dias conversava com eles, fazia carinho e os mimava, sabia o nome e a raça de cada um deles.
         Foi assim que ele teve a ideia de escrever uma história infantil em que os animaizinhos eram os protagonistas que viviam as maiores aventuras enquanto seus donos dormiam.
         A história foi extremamente elogiada por Paula.
         ___ Sucesso! __ disse ela.
         ___ Vai ficar melhor ainda, vou pedir a um amigo para fazer uma parceria comigo, acho que esse livro deveria ser digital, hoje em dia as crianças vivem com eletrônicos nas mãos, elas vão adorar.
         Não só o amigo topou, como conseguiram patrocínio para a empreitada.
         ___ O meu escritor favorito merece uma série de cuidados regados a champanhe. __ disse Paula.

         Anderson, que estava no computador, salvou tudo e apagou a luz.

sábado, 21 de junho de 2014

Tensão invisível

Acho que hoje vai dar, o trabalho no escritório está adiantado, a petição inicial vai ser entregue amanhã. __ pensou.
         Faltando algumas horas para o final de seu expediente ele saiu, disse ao estagiário que não voltaria mais, que esperasse por Armando, seu sócio, pois esse poderia ter algum pedido para fazer ainda.
         No metrô suas pernas tremeram.
         Pensando melhor, talvez o ideal seja eu ir direto para casa, a discussão com a Nancy foi péssima, está ficando cada vez pior a situação, não quero mais problemas.
         Embora a voz da razão soprasse em seu ouvido o caminho a ser tomado, ele não se mexeu do lugar, continuou ali esperando o metrô.
         Nancy sempre fora calma, doce, nunca exigiu muito dele, sabia que não era amada, mas achava que poderia lidar com isso, na verdade ela não se importava com esse fato, para ela isso era um mero detalhe.
 Maurício, por sua vez, procurou proporcionar-lhe uma vida confortável, quando ela quis parar de trabalhar para cuidar da casa, ele não se opôs, o que ganhava no escritório dava muito bem para manter o padrão de vida deles.
Há determinadas coisas na vida que não temos como disfarçar...
O metrô chegou dispersando os pensamentos dele.
Somos apenas carne, um amontoado de carne.
___ Com licença, senhor. __ disse uma jovem.
Quando foi que eu deixei de ser apenas um rapaz? Quando foi que eu me tornei um senhor? Isso parece tão sério: senhor... parece que o sorriso se foi, levando minha juventude com ele.
Embora ainda não tivesse 40 anos, trazia sempre o rosto fechado, sério, não parecia mais a pessoa descontraída que era na faculdade.
A discussão ontem começou por causa disso, Nancy me acusou de não ser feliz porque eu não sorrio mais. Agora tudo é motivo de briga. Não há motivo algum para eu sorrir.
Na semana anterior, encontrou a esposa esperando sentada no sofá, com uma taça de vinho na mão.
___ Cada dia você chega em um horário diferente em casa. Não o esperei para jantar.
___ Pelo visto você preferiu nem jantar.
___ Sozinha? Não.
___ Nancy, você sabe muito bem que nem todas as audiências que eu faço são no Centro, às vezes eu vou para longe.
___ Deveria ir trabalhar de carro, assim você não demora tanto para voltar.
Tirando a gravata, ele sentou no sofá exausto.
___ Você sabe que eu detesto dirigir.
___ Não, eu acho que o seu problema não é esse, você adora demorar na rua, provavelmente fazendo alguma coisa que eu não sei.
___ Nancy, estou cansado, amanhã tenho que trabalhar cedo, realmente estou sem paciência para ficar discutindo com você.
___ Nem um carinho você me dá, nem de amor você me chama... __ começou a chorar__ Antes de nos casarmos você parecia ser tão feliz, estava sempre sorrindo. Qual é o problema? Qual é o seu problema?
Em silêncio, Maurício pegou o paletó, a gravata, a pasta e foi para o quarto. Simplesmente detestava aquelas ceninhas patéticas que pareciam tão ao gosto da mulher. Pelo visto ela beberia a garrafa toda e talvez dormisse na sala mesmo.
Pegou na pasta um documento, na verdade um cartão com algo escrito, sentiu um enorme conforto olhando para aquilo.
Vivemos de nossas escolhas, mas não precisamos ser reféns delas.
Toda a erudição desse pensamento não o confortou, até mesmo Shakespeare sofreu com a indecisão.
___ Como era mesmo aquela passagem? __ perguntou para si __ Lembrei: “Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre em nosso espírito sofrer pedras e flechas com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, ou insurgir-nos contra um mar de provocações e em luta pôr-lhes fim?”
Recitar Shakespeare a uma hora dessas... francamente, preciso descansar.
Mas a sensação de incômodo persistiu, o vazio daquela vida era enorme.
Amanhã eu vou!
Naquela manhã acordou feliz, corajoso. Estava assoviando quando ouviu Nancy pedindo para ele parar com o barulho porque estava com dor de cabeça.
       Nada como uma descarga de mau humor para acabar com a manhã.
         Oscilando entre a vontade e o medo, Maurício mal sentiu o dia passando.
         Desceu apressado do metrô, com passos rápidos chegou ao seu destino.
         Há quanto tempo não venho, deveria ter dado um fim nisso há muito tempo!
         A rua era pouco movimentada, mas no bairro onde estava ninguém acharia estranho ver um homem, elegantemente vestido, parado na rua. O bairro de classe média alta era famoso por sua tranqüilidade.
         Ressabiado, olhou para os dois lados da rua, não havia nada com o que se preocupar.
         Vou entrar!
         Não sabia o quanto era feliz ali, o quanto sua vida mudava de significado, parecia ter um rumo, uma direção.
         É festa!
         Seu armário continuava da maneira como o havia visto pela última vez, tudo no mesmo lugar, tudo o que precisava estava ali. Tocar em seus objetos era como ser transportado para outro mundo.
         ___ Pensei que não veria mais você, Maurício.
         ___ Você sabe que eu sempre volto.
         ___ Eu poderia não estar aqui. Você não telefonou.
         ___ Eu sei que te devo desculpas... __ a frase ficou em suspenso.
         Havia uma pergunta a ser feita:
         ___ Hoje vai poder ficar um pouco mais?
         Ele pensou, adoraria dizer aquele par de olhos castanhos que ficaria para sempre, mas sabia que não podia, a vida, o mundo, continuava a girar lá fora e ele precisava fazer parte disso.
         ___ Não. __ a voz saiu insegura, carente.
         ___ Lembra da última vez?
         ___ Como eu poderia esquecer? Foi fantástico, penso nisso todos os dias.
         ___ Que bom!
         ___ Sabe que eu sofro, sou fraco.
         ___ Todos nós sofremos, mas há um provérbio japonês antigo que diz o seguinte: “Aquele que ri, ao invés de enfurecer-se, é sempre o mais forte.”. Todos somos fortes a nossa maneira.
         ___ Eu te amo.
         ___ Maurício... ah... Para que perder tempo com jogos de palavras. Eu também te amo. Vou te deixar a vontade.
         O silêncio era completo, havia apenas uma luz acesa e ele se colocou no meio dela.
         O som suave do piano acompanhou a voz nos primeiros acordes de “Ne me quitte pás” ao melhor estilo de Piaf.
         Os aplausos surgiram.
       Estou feliz!
         Ao cantar o seguinte trecho, buscou os doces olhos amados:
         “Moi je t’offrirai
         Des perles de pluie
         Venues de pays
         Où il ne pleut pas
         Je creuserai la terre
         Jusqu’apres ma mort
         Pour couvrir ton corps
         D’or et lumière” [i]
        
         Estava no seu auge, maravilhoso, sublime.
         Os últimos versos sempre guardam surpresas, e ao imprimir sua voz suave em: “Laisse-moi devenir” [ii], ouviu-se o som ensurdecedor de um tiro sendo disparado.
         A diva estava caída no chão. Todos correram para ampará-la, inclusive sua algoz.
         ___ Maurício me perdoa. Eu estava louca, desconfiada, segui você até aqui. Oh, meu Deus, o que foi que eu fiz? Não morra, não morra...
         A voz estava difícil de sair, a dor era lancinante.
         ___ Nancy, eu tentei, mas não consegui.
         ___ Maurício, por favor, não vá embora. Agora que ela sabe de tudo ainda podemos ficar juntos.
         A voz de André penetrava como que vinda de longe nos ouvidos de Maurício.
         ___ Je ne vais plus pleurer.[iii] Eu te amo, André, jamais deveria ter escondido o que eu era.
         Aos poucos os olhos foram se fechando, o silêncio tomou conta de tudo, seu corpo já não sentia mais dor, estava partindo, partia como deveria ter nascido.
        


        




[i] Te oferecerei
Pérolas de chuva
Vindas de um país
Onde não chove
Revolverei a terra
Muito além da minha morte
Para cobrir o teu corpo
De ouro e luz

[ii] Deixa-me existir
[iii]  Eu não vou chorar